num apartamento perdido na cidade

Do alto da janela do meu quarto… 

Ouço fogos

Ouço tiros

Ouço gritos

Ora o galo

denunciando a hora

ou anunciando o dia

Ora o funk

batendo no asfalto

ressoando lá em cima

Não há silêncio

Não há calmaria

Mas há pôr-do-sol

esta minha aurora particular

entrecortada por aviões

arrasada por helicópteros

Da janela do alto do meu quarto… 

Ouço as motos rasgando a cidade

ou os ônibus movimentando as ruas?

Ouço os cães que latem em escala

de uma porta para outra

De lá

Vejo lajes, coberturas, piscinas

Quarteirões, edifícios, casinhas

Vejo o zoológico ou o jardim botânico? 

Vejo os carros de quem foge de São Paulo 

ou os carros de quem insiste em ficar aqui

Do alto da janela do meu quarto…

Tudo parece ser mais

o finito, o horizonte, o que chega aos meus ouvidos

Não há suavidade

Nada chega sem um eco, um apito, um aviso

Talvez por isso os meus sonhos sejam tão inquietos

e eu deseje apenas o silêncio 

de um dia ou uma noite

que vibre ou reluza sem avisar antes.

get up on my own

The last message you sent said I looked truly down

That I oughtta come over and talk about it

Well, I wasnt down, I just wasnt smiling at you 

As I look at us now it seems that your slapping my back 

As If its all alright, but its not, I tried to get up 

But you are pushing me down, you were pushing me down

So I will get up on my own, get up on my own. 

(…) 

Well, I am just a voice in your earpiece

Telling you: “no, its not alright!”

You know you could have it so much better. 

walk away

(…) and I am cold, yes I´m cold 

but not as cold as you are.

à palo seco

Preciso de tão pouco. Coisa besta, simples, provida de quase nenhum esforço. Mas, pensando bem, preciso de tanto e preciso de tudo. Coisa grande, que eu consiga sentir esforço em cada ato, palavra, em cada passo em direção a realização de qualquer coisa que me agrade. 

Às vezes eu só preciso de um abraço. Um sorriso também vale. Sentir protegida, abraçada. Sentir que tenho para onde ir, aonde deitar. 

Mas às vezes eu teimo em querer mais. O óculos novo tem me fornecido uma infinidade de novos símbolos, gestos, letras. Mas tudo está longe. De perto, eu enxergo absolutamente a mesma coisa. E o problema é essa mesmisse. É ver exatamente o que sempre vi. 

O meu maior medo é que a burocracia, a mesmisse e a repetição se instalem. É o receio de tudo só ser memória - da rotina vivida e sustentada pela rotina. 

É por isso que preciso de mais e de tudo ao mesmo tempo, na mesma hora, do meu jeito, à meu bel prazer.

Mesmo sabendo que o pouco me basta, me preenche e me faz feliz.

É isso que você não entende e eu não consigo explicar. 

você não quer ver nada além

Fique com seus bonsais, seus haicais, sua paz

Sua flores, seu jardim de inverno 

Se isso é o céu, eu prefiro meu inferno. 


Nada Além, Zeca Baleiro

mas eu sinto, e sinto, sinto tudo, todos.

(…) Mas eu sinto, sabe? Sinto muito as coisas. Tudo, todos. Mesmo que eu tente esconder, mesmo que eu tente não me mostrar. Mesmo que eu disfarce. Eu sinto tudo demais. E é por isso que às vezes as coisas doem tanto.

Caio Fernando Abreu

Mas aí você sorriu e eu deixei tudo

Cheguei com pedras e garrafas para cima de você. Mas aí você sorriu e eu deixei tudo cair. E o barulho foi tão forte que silenciou cada palavra ou pretensão minha de te fazer entender algo. Um sorriso seu basta. E aí veio o abraço, o beijo, o carinho. E aí te senti tão perto, tão presente, mais do meu lado do que eu mesma. Tão próximo. 

Quis sorrir de volta, encher o copo e a mesa com nossas conversas, nossas risadas e tudo que só a gente tem, pensa, diz e faz. Juntos. 

Mas conversa marcada tem hora. E faz lembrar que os problemas não se resolvem com um sorriso ou se finalizam no ato de algum esquecimento. 

E depois do dito, não dito, do choro, da mágoa que teimou em se espalhar por nós, nossos copos e mesas ao redor, as coisas voltaram. 

Voltaram para nós. Com ainda mais força e mais amor e intensidade. 

Saímos abraçados, como quem mais nada precisa e ao mesmo tempo quer o mundo inteirinho para dar ao outro. É, no final, conseguimos jogar tudo para o alto e nos manter firme. E felizes. 

"Se você quiser ser feliz, terá que aprender a ignorar muita coisa." 

vulnerabilidade

Sabe o que eu queria de verdade?

Queria ser menos vulnerável. 

Que as coisas me tocassem menos. 

Ser menos sentimental. 

Menos emotiva. 

Menos. 

Queria não dar a mínima quando você me diz algo que não quero ouvir. 

Ou criar menos expectativas quando você diz exatamente o que quero escutar. 

Queria que as coisas não me atingissem com tamanha intensidade e precisão. 

Queria ser mais fria, menos ansiosa e preocupada. 

Queria saber me preocupar de verdade. 

EXAUSTO

Eu quero uma licença de dormir,

perdão pra descansar horas a fio,

sem ao menos sonhar

a leve palha de um pequeno sonho. 

Quero o que antes da vida

foi o profundo sono das espécies,

a graça de um estado.

Semente. 

Muito mais que raízes. 

Adélia Prado